Como Conviver com a Diversidade Cultural

Postado em 13 de março de 2017
Cartoon by Nikola Hendrickx
O professor de política ensina como conseguir prosperar diante do desafio das sociedades plurais. Leia o artigo completo, em inglês, aqui.
Desconforto Reflexivo
por Bryan T. McGraw
[…]
A questão é que, para manobrar com sucesso o pluralismo muito real, e às vezes conflituoso, de nossas sociedades, precisamos manter nossas expectativas corretas e entender como dar ao pluralismo seu devido valor sem tornar impossível a nossa vida política comum. John Inazu formulou isso em termos de “pluralismo confiante”, e embora eu já tenha escrito por que acho que ele pode estar excessivamente otimista em suas expectativas, sua sugestão de que devemos buscar uma espécie de “confiança” em nossa particularidade parece certa . O que isso significa é que devemos almejar uma ordem social na qual as pessoas se sintam livres para ordenar suas vidas como entenderem e reconhecer a liberdade dos outros para fazê-lo também. Mas isso não é apenas “viver e deixar viver”, pois reconhece que ordenar nossas vidas “como achamos adequado” normalmente inclui um componente público e, pelo menos, às vezes está em desacordo com as opiniões dos outros sobre suas próprias vidas.
 
Podemos cometer dois erros a esse respeito. Podemos, por um lado, ser inteiramente hostis ao sentimento de prosperidade dos outros, não compreendendo que muitas de nossas diferenças refletem esforços sérios para fazer algo pela existência humana à luz de uma história particular ou de compromissos morais e religiosos fundamentais. Mas podemos também, por outro lado, negligenciar nossas faculdades críticas e não reconhecer que, por vezes, afirmar que nosso modo de vida é bom necessariamente requer que se afirme que os modos de vida dos outros são insuficientes ou mesmo ruins.
 
Ambos os erros ironicamente provêm da mesma raiz: incapacidade de dar o devido respeito à dignidade humana. O primeiro faz isso ao não reconhecer um elemento central da liberdade humana e o segundo ao não reconhecer como essa liberdade pode dar (e dá) errado graveemente.
 
Em vez de hostilidade e indiferença, devemos, penso eu, perseguir um objetivo que poderíamos chamar de “desconforto reflexivo”. [1] “Viva e deixe viver” ou “celebre a diversidade” nos pede que fiquemos inteiramente à vontade em nossa cultura pluralista, mas ao custo de não ver claramente esse pluralismo e seus conflitos. Hostilidade irrefletidamente apenas leva essas diferenças a serem destrutivas e ruinosas. Levando a sério esse pluralismo, podemos ver mais claramente onde os nossos compromissos deparam-se com os dos outros e onde eles podem coexistir e até mesmo complementar-se. Não precisamos supor estar inteiramente à vontade em um mundo onde vivemos lado a lado com outros que são realmente bastante diferentes de nós, mas tampouco devemos supor estar em guerra, metaforicamente ou de verdade.
 
Retomar uma visão comum para Florescer
 
Suponhamos que isso esteja mais ou menos correto, e que os cristãos, assim como os outros, deveriam almejar o “desconforto reflexivo”. O que devemos fazer politica e socialmente?
 
Em primeiro lugar, parece-nos razoável pressionar por instituições políticas que dêem ao pluralismo o devido valor, ou seja, instituições políticas que sejam restringidas de impor normas putativas, sem necessidade real. Contudo, não basta apenas defender barreiras para nós e nossas instituições. Na medida em que estamos dispostos a tolerar a opressão dos modos de vida dos outros, estamos, implicitamente, convidando que o mesmo seja feito conosco se as marés políticas mudarem – como sempre acontece.  Às vezes me preocupo com a nossa linguagem do bem comum, precisamente porque ela pode nos predispor a negligenciar os verdadeiros desafios do pluralismo. Mas certamente podemos concordar que devemos conceder aos outros pelo menos tanto espaço social, legal e político para formar e desenvolver seus modos de vida quanto queremos para nós mesmos.
 
Mas a política não será suficiente; na verdade, suspeito que uma política bem-sucedida, que visa algo como o bem comum, ao mesmo tempo em que dá ao pluralismo o devido valor, só pode se concretizar em uma cultura mais ampla que leve em conta tanto o nosso próprio florescimento quanto o dos outros. Para isso precisamos, primeiro, concentrarmo-nos em retomar e reenergizar nossas comunidades em torno de uma visão comum (ou visões comuns, mais provavelmente) de como se parece a visão cristã do florescimento humano, tanto teórica como praticamente. Não nos será suficiente lamuriarmo-nos sobre “tolerância” ou “liberdade” ou o que seja. Se não pudermos articular com clareza e demonstrar de modo prático que as normas e práticas que exibimos são dignas de, pelo menos, um respeito de má vontade, ou mesmo admiração, nenhuma estratégia política de litígio, legislação ou decreto será bem sucedido a longo prazo. Isso significa colocar nossas próprias casas em ordem, comprometendo nossos próprios recursos de tempo, dinheiro e esforço, e (re) construir nossas próprias instituições para que eles possam fazer o que eles devem fazer: formar um povo para a glória de Deus.
 
Ao fazê-lo, nós cristãos estaremos, inevitavelmente – porque isso é em parte o que significa ser um cristão- muito preocupados com o florescimento dos outros também. Não deve fazer parte da vida cristã esperar que nos saiamos bem e que os outros sofram. Se adotarmos amar nossos vizinhos de todo o coração como aditamos amar a nós mesmos, os que estão inclinados a continuar a nos desprezar farão isso apesar de nós, não por causa de nós.
 
Não se engane- esta não é uma receita garantida para o sucesso. Podemos falhar, e provavelmente falharemos, algumas vezes talvez de forma espetacular. Mas podemos florescer e contribuir para o florescimento dos outros, dentro de uma ordem pluralista, mas somente na medida em que estivermos genuinamente interessados em nosso bem e no bem dos outros, e estamos dispostos a trabalhar e a nos sacrificar por isso. No fundo, eu não acho que a verdadeira questão seja como podemos viver bem no contexto de uma ordem democrática pluralista. A questão é: queremos realmente isso?
 
[1] Devo esta frase a uma conversa com Noah Toly, embora eu não o sobrecarregaria com minhas interpretações.
 
 Bryan McGraw é Professor Associado de Política na Wheaton College.
 
Para responder ao autor deste artigo, por favor envie email para: [email protected] Análise de Justiça Pública (PJR) explora em profundidade questões específicas de justiça pública, equipando os cidadãos para perseguir o bom propósito de Deus para a nossa comunidade política. Os artigos não representam necessariamente uma posição oficial do Centro de Justiça Pública, mas destinam-se a contribuir para o avanço da discussão. 

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