‘Gabinete paralelo’, negociação com a Pfizer e atuação da Anvisa: os próximos passos da CPI da Covid-19

Postado em 8 de maio de 2021

Quem acompanhou a primeira semana de depoimentos à CPI da Covid-19 pôde perceber que a prescrição de cloroquina, ivermectina e outros remédios comprovadamente ineficazes para o tratamento da doença, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esteve no centro do debate. Os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich afirmaram aos integrantes da comissão que havia pressão, por parte do Palácio do Planalto, por uma recomendação do Ministério da Saúde que autorizasse a ampliação do uso dos fármacos, algo defendido pelo presidente Jair Bolsonaro desde o início da pandemia. Na próxima semana, serão ouvidos o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, o ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), Fabio Wajngarten, a atual presidente da Pfizer no Brasil, Marta Díez, e seu antecessor, Carlos Murillo, e o ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, demitido após intensa pressão do Congresso. Se as primeiras oitivas deram protagonismo à cloroquina, as próximas testemunhas podem ajudar os parlamentares a apurar se o governo federal boicotou a compra de vacinas e se há, de fato, um “gabinete paralelo” que assessora o chefe do Executivo federal.

Em seu depoimento, Mandetta afirmou aos senadores que Jair Bolsonaro ignorou recomendações técnicas feitas pelo Ministério da Saúde, optando por um “assessoramento paralelo”, que incluía, segundo o ex-ministro, o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, que é vereador no Rio de Janeiro. “Testemunhei várias vezes reuniões de ministros em que o filho do presidente, que é vereador no Rio, estava sentado atrás tomando notas. Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da Presidência”, relatou. Na avaliação de membros da CPI ouvidos pela Jovem Pan, esta informação pode ser endossada por dois dos próximos depoentes: Wajngarten e Ernesto Araújo, bolsonaristas de primeira hora e integrantes da chamada ala ideológica do governo. Eles serão ouvidos, respectivamente, na quarta-feira, 12, e na quinta-feira, 13. O ex-chefe da Secom, inclusive, disse, em entrevista à revista “Veja”, que Bolsonaro “era abastecido com informações erradas, não sei se por dolo, incompetência ou as duas coisas”.

A CPI da Covid-19 também quer esclarecer como foi a negociação do governo com a Pfizer, que ofertou 70 milhões de doses de seu imunizante ainda em agosto do ano passado, já sob a gestão de Eduardo Pazuello. Depois da recusa inicial, o Brasil assinou um contrato que prevê a entrega de 100 milhões de doses, cujo primeiro lote chegou em abril deste ano, e anunciou, nesta quinta-feira, 6, a destinação de R$ 6,6 bilhões para comprar mais 100 milhões de doses. Além de ouvir os representantes da farmacêutica, os integrantes pretendem questionar Wajngarten a este respeito, já que, também à “Veja”, afirmou que o acordo não foi firmado porque houve “incompetência” e “ineficiência” dos gestores do Ministério da Saúde. No G7, grupo formado pelos sete senadores independentes e da oposição, também há a expectativa de que o depoimento do ex-chefe da Secom forneça subsídios para questionamentos que serão feitos a Eduardo Pazuello – o ex-ministro seria ouvido na quarta-feira, 6, mas sua ida à comissão foi adiada para o dia 19 de maio porque o general afirmou ter tido contato com duas pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

Outros dois aspectos na mira da comissão são a relação do Brasil com a comunidade internacional, em especial a China, e a atuação da Anvisa nos processos de análise e aprovação emergencial de vacinas contra a Covid-19 – governadores do Nordeste firmaram acordo para a aquisição de 30 milhões de doses da Sputnik V, mas a autarquia negou a importação do imunizante russo. Estes temas devem estar no centro dos depoimentos de Ernesto Araújo e do presidente da agência reguladora, Antônio Barra Torres.

Fonte do artigo:

Política – Jovem Pan

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Autoria do texto: André Siqueira.
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